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Felipe Dreher Felipe Dreher
CRN Brasil Entrevista | 6 de fevereiro de 2012

Os desafios e benefícios da coinovação

Parceiros e clientes impulsionam a geração de novas e mais aderentes soluções. Humberto Vieites, diretor de ecossistema de serviços da SAP Brasil, aborda os benefícios e desafios de iniciativas de coinovação

A inovação abre-se aos poucos às empresas no Brasil. Os modelos para gerar novidades deixam de ser monolíticos e estanques nas áreas de P&D das companhias na medida em que o mercado demanda soluções mais complexas em velocidades exorbitantes. Aparecem iniciativas – e consequentes resultados – de aplicação de conceitos de Open e Co-Innovation. “A única coisa mais barata que colaborar é não fazer nada”, sintetiza Humberto Vieites, diretor de ecossistema de serviços da SAP Brasil.

A fabricante alemã de software segue o caminho de trazer ideias do lado de fora de seus portões. A companhia inaugurou em outubro de 2010 um laboratório de coinovação no País. Junto com as estruturas de Palo Alto (EUA), Tóquio (Japão), Bangalore (Índia), Walldorf (Alemanha) e Seul (Coréia do Sul), o COIL (Co-Innovation Lab) de São Paulo mira a criação de soluções conjuntas, aceleração em desenvolvimento e adoção tecnológica, provimento de infraestrutura compartilhada para projetos e geração de cases em conjunto. O executivo relata os benefícios do modelo e conta como trazer parceiros e clientes para alcançar um objetivo comum.

CRN Brasil – Conceitos de coinovação são discutidos há bastante tempo, mas ainda pouco aplicados. Por quê?
Humberto Vieites – Não sou um especialista acadêmico no assunto. Me fiz muito na prática. Mas eu diria que a coinovação só funciona bem quando existe um objetivo comum. Se você junta duas empresas limitando ao desenvolvimento de determinado produto ou para um fim específico de aplicação, o conceito não avança e a iniciativa morre. Acho que, muitas vezes, o não êxito da coinovação se deve a essa limitação; ao fato de que o primeiro passo, que é desenvolver um produto, até vai bem, mas acaba aí. Em tecnologia, há uma relação cliente e fornecedor, mas no caso da SAP, o que estamos fazendo é ir junto com mercado.

CRN Brasil – Sabendo para onde se caminha?
Vieites – Sabemos mais. A coinovação, como a entendemos, é um processo que logo de cara pede muita seleção. Para escolher a primeira empresa com a qual fizemos parceria [com a Sigga, que culminou na criação de sistema para realizar o gerenciamento da manutenção de ativos por meio de dispositivos móveis], eu mesmo entrevistei mais de 25 empresas de mobilidade. Logo você vai sabendo se, naquele potencial aliado que procura, terá um relacionamento de longo prazo. Nos preocupamos em fazer isso.

CRN Brasil – Por que vasculhar mais de 20 empresas e encontrar apenas uma?
Vieites – Vamos dizer que fizemos um scan no mercado. A empresa selecionada apresentou capacidade de realização e potencial. Eles tinham um produto bom, ideias muito boas, experiências interessantes e eu falei: “esse cara eu potencializo de uma forma que nunca, em sua vida, irá conseguir”. Funciona meio como um exercício futurístico e você está sujeito a erros, mas tem que sentir um cheiro forte de que o negócio estará lá.

CRN Brasil – O que é fundamental na hora de construir uma estratégia de coinovação?
Vieites – Em uma inovação bem colaborativa, de igual para igual, o fundamental é ter claro o objetivo a que se quer chegar. Normalmente, buscamos mercado, mas também queremos gerar conhecimento, por exemplo. Se as metas estiverem bem conhecidas e acordadas pelas partes, são grandes as chances de alcançar sucesso. É isso que propomos. Não vou até uma empresa falando “desenvolve algo aí e vemos o que acontece”.

CRN Brasil – A busca pela coinovação deve sempre mirar conhecimento ou ampliação de mercado?
Vieites – Não sou um conhecedor teórico do assunto, como falei. O que temos buscado é isso, ou mercado ou desenvolver conhecimento. As duas coisas tem em si o objetivo de sempre focar na entrega de algo que faça o cliente funcionar melhor. Quando se tem isso claro, torna-se algo útil para a empresa. Nossa proposta é funcionar como uma grande ferramenta, um caldeirão de inovações. Para mim, isso é o que tem funcionado como um grande motor desses relacionamentos: objetivos claros e conjuntos e acordados, seja para fazer dinheiro, seja para gerar conhecimento. Se não, para que outra coisa haverá de ser?

CRN Brasil – Talvez garantir melhores processos…
Vieites – Não vou falar o que é porque se trata de algo totalmente cru, mas tem um cara no Brasil que faz anos que venho conversando e que adoraria encaixá-lo nos processos SAP. Temo que ainda seja cedo. Acho que nem tanto dinheiro vamos fazer a partir de uma parceria, contudo vai ser uma ação tão legal de go to market para nossos clientes que vai valer a pena.

CRN Brasil – E é muito difícil achar alguém para fazer um bom trabalho de inovação conjunta? Pergunto, pois não vejo nenhuma empresa que não queira mais conhecimento ou mercado!
Vieites – Sim, mas o grande lance é que as duas partes precisam fazer as mesmas coisas, nos mesmos tempos. Não adianta ter um engajamento desses se ambas empresas não são beneficiadas. É muito fácil, por exemplo, apenas uma delas se beneficiar.

CRN Brasil – Qual a receita?
Vieites – Primeiro, o objetivo tem que ser comum e claro; segundo, as duas partes precisam ser beneficiadas. Um objetivo claro não é o suficiente se somente uma das empresas será beneficiada. Os objetivos só serão verdadeiramente comuns quando ambos se beneficiam do conhecimento, do mercado, dos retornos econômicos; cada um com sua medida. Por isso que falo que trata-se de um trabalho entre iguais. Nós não fazemos isso porque somos legais ou nossos parceiros são legais ou porque quero sugar todo o conhecimento de alguém. Ambos têm que tirar proveito desse objetivo comum.

CRN Brasil – A SAP atua em coinovação apenas dentro de seu ecossistema?
Vieites – Sim e não. Tem alguns que fazem parte hoje e que nunca foram nossos parceiros. Alguns, com o andar da carruagem e conhecimento, identificamos grande potencial e vieram a compor nossa base. Uma empresa que hoje trabalha com a gente ficou um ano sem fazer parte de nosso programa e eles entraram porque quiseram, pois nós não os obrigamos a tomar tal atitude.

CRN Brasil – Na sua visão então, o processo não necessita ser tão formalizado para que se alcancem ganhos mútuos?
Vieites – Não é um pré-requisito, mas depois você formaliza. Estamos abertos a qualquer oportunidade de negócio, com qualquer empresa do Brasil. Uma das nossas áreas-foco é mobilidade. Mobilizamos 38 empresas com conhecimento nessa área, no País, para ver o que elas conseguiam fazer com nossa tecnologia. Oferecemos oportunidade de usar nossa plataforma móvel (SUP, Sybase Unwired Platform), das quais 11 se registraram. Tínhamos lugar para 10, mas resolvemos dar espaço a mais um.

CRN Brasil – Tem como utilizar inovação envolvendo um concorrente, por exemplo?
Vieites – Não é algo impossível. Em alguns casos, estávamos dispostos a isso. É mais difícil, obviamente, para chegar a um acordo no que se refere a um objetivo comum porque muitas vezes eles são conflitantes, então aquele primeiro pré-requisito tem que estar ainda mais claro.

CRN Brasil – Como funciona o laboratório?
Vieites – Temos um ferramental. O COIL é uma máquina de transferência de tecnologia, que tem três coisas: uma metodologia de como colocar os parceiros dentro dos sistemas SAP; uma rede mundial de especialistas formada por cerca de 60 pessoas que conhecem tecnicamente os meandros de nossas ferramentas; e infraestrutura necessária, uma vez que o laboratório é aquilo que em TI se chama sandbox [caixa de areia, em tradução livre] que permite às pessoas brincarem.

CRN Brasil – Como saber que aquela pessoa/empresa mapeada tem o objetivo comum ao seu?
Vieites – O processo pede muitas conversas. Tem casos que é possível saber muito rapidamente e aí é mais instinto de negócios e experiência, não somente conhecimento técnico. Não é fácil reconhecer os objetivos, mas vou falar de três situações extremas. A primeira é de um executivo falar que se compromete com algo. Quando estabelecemos os objetivos, documentamos as intenções. Aí, vamos para as primeiras interações. É muito fácil nesse momento identificar o cara que está decidido a tocar o processo com você, o que vai fazer, colocar recurso, como vai ser feito.

Você vê claramente os que avançam com seriedade e aquelas que não são sérias. Tem um tipo de empresa que fica no meio disso e aí a coisa fica mais difícil. O cara pode até ter uma ideia muito boa ou um excelente produto, mas não é totalmente descompromissado, mas também não é totalmente engajado… fica no meio do caminho.

CRN Brasil – O laboratório de coinovação no Brasil tem cerca de um ano. Que resultados colheu até agora?
Vieites – Temos relacionamento com cerca de 15 a 20 empresas. Desse total, sem considerar o primeiro processo, avaliamos cerca de 50 a 60 negócios. No primeiro ano de operação já fizemos dois processos com a mesma empresa (Sigga) para certificação de aplicações e começamos a vender o produto desenvolvido em conjunto.

CRN Brasil – O que a Sigga ganhou com a parceria?
Vieites – Respondo essa pergunta facilmente: a Sigga vai vender em um ano o montante que vendeu em oito. Uma coisa é a empresa sozinha, com um baita produto, mas sem o nível de tecnologia que disponibilizamos. O processo levou um ano e tanto para certificar a solução. O trabalho foi longo e chato, com um monte de gente vindo de diversas partes do mundo para validar que o trabalho está bem feito, passando por uma avaliação dividida em sete capítulos, cada um com cinco passos.

CRN Brasil – E qual a expectativa para os próximos anos com essas 20 e tantas empresas?
Vieites – Esperamos duas coisas. Uma é a geração de mais produtos. A segunda coisa é um envolvimento de clientes no laboratório. Aí podemos observar outro ponto relacionado a coinovação que refere-se à adoção de produtos. Justamente o entrosamento com o cliente pode fazer com que o mercado adote mais rapidamente e sem tanta dor nossos produtos.

CRN Brasil – A ideia agora é ampliar a quantidade de parceiros?
Vieites – O laboratório pretende crescer também em pessoas e em instalações físicas. Não sei exatamente, mas diria que, de uma forma geral, pretendemos duplicar a quantidade de projetos. Desses cerca de vinte que temos hoje, creio que cheguemos a cerca de quarenta.

CRN Brasil – Isso já considerando clientes?
Vieites – Fazer o projeto com um parceiro não exclui que o cliente participe. Aliás, já tivemos uma iniciativa que englobou o usuário, o parceiro e o COIL.

CRN Brasil – Vocês já computaram algum erro ao longo desse ano de operação?
Vieites – (O executivo bate três vezes na mesa). Ainda não.

CRN Brasil – Mas, em algum momento e falando em inovação, isso vai acontecer.
Vieites – Vai.

CRN Brasil – E o que farão quando isso ocorrer?
Vieites – Quando você pretende se meter em um projeto de inovação, o risco de errar é grande. Por isso tem que ter o discernimento de que pode ser o momento de desplugar a iniciativa quando vê que não vamos chegar ao objetivo que queríamos.

CRN Brasil – Inovação sempre tem esse grande fator de risco. O trabalho colaborativo diminuiu um pouco a questão?
Vieites – Diminui bastante porque, por exemplo, com a união das capacidades você complementa bem o outro. A única coisa mais barata que colaborar é não fazer nada. Da mesma maneira que a única forma de fazer as coisas mais rapidamente é colaborando. Você une o que há de melhor em capacidade dos dois mundos. Nenhuma empresa com 50 mil funcionários consegue mover-se rápido. É impossível. Agora, uma organização com 100 empregados onde se fala com o dono pode ser classificada de ágil? Esse cara muda tudo do dia para noite. Ele me dá uma agilidade que não teria em nenhuma outra situação na vida. A SAP há 40 anos era tão veloz quanto ele. Agora, ele nos dá agilidade, ideias, conhecimento específico e nós damos a ele tecnologia, processo, acesso a pontos que, na vida inteira, provavelmente nunca pensou que teria. Um mercado que ele nunca acessaria. E vamos para isso juntos. O interessante disso é que tudo é feito de igual para igual.

CRN Brasil – Mesmo a SAP sendo um gigante?
Vieites – Mesmo a SAP sendo um gigante (o executivo faz uma pausa reflexiva)… É, parece inacreditável.

CRN Brasil – O que mudou na busca por parceiros ao longo do tempo?
Vieites – Naquela época, há três anos, o trabalho era difícil. Era uma coisa que nem sabíamos se ia dar certo. Com a Sigga, para eles começarem no processo, a conversa demorou um tempo longo. Hoje, isso já é muito menos doloroso.

CRN Brasil – Você acredita na viabilidade de um processo de inovação entre canais, sem um concentrador como é o caso da SAP?
Vieites – Creio que dê para fazer. A SAP é essencial para isso acontecer? Não, ninguém é essencial. Acontece que uma empresa do nosso tamanho dá uma magnitude diferente às iniciativas ou seja, quando fizemos um bom produto com nossa marca é um diferencial enorme. Dois canais podem fazer? Claro. E, de fato, a colaboração no nosso ecossistema já existe em determinados projetos complicados, novos ou grandes. Quando uma revenda que ganhou o trabalho não tem total expertise para atendê-lo, a primeira coisa que faz é pegar o telefone e ligar para um concorrente dizendo que há a possibilidade de compartilhar a oportunidade. Em nosso ecossistema de serviços isso é normalíssimo.

CRN Brasil – A ideia é que os produtos criados a partir do laboratório brasileiro sejam incorporados ao portfólio global da SAP?
Vieites – Vamos devagar com o andor. Começa local e depois veremos. A política é essa.

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